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Transcendência

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Para tudo há um limite. Quando chegamos perto de um limite, quando o vimos diante de nós, sabemos que estamos perto do perigo. É como o fogo, quanto mais próximo mais quente, mais probabilidades há de queimar. Nesse momento, e apenas nesse momento, quando encaramos o limite, temos uma coisa nas mãos: a decisão de avançar ou recuar. Mas há alguém que consiga tomar uma decisão acertada num momento de pressão? Não, não acho que haja. Se houver, olha, que bom para essas pessoas, sinto inveja por terem essa capacidade. A capacidade de decidir, perante o limite, e sobretudo, o perigo, se querem avançar ou recuar.
 Nada disto significa que ultrapassar limites seja algo propriamente mau. Como se o perigo fosse um monstro das cavernas. Pela definição, limite é o momento que corresponde ao fim ou começo de algo. A partir disto temos dois tópicos que nos podem ajudar a classificar limite como bom ou mau: ou esse limite acaba com algo mau e cria algo bom ou acaba com algo bom e cria algo mau. Is…

Preto no branco

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O nevoeiro é intenso. Tenho um vislumbre de ti, bem ao fundo. Não és palpável, mas sei que és tu pelo teu modo sereno. Avanço na tua direção. Preciso que me expliques uma coisa, aproxima-te. Precisas ouvir com atenção. Precisas ficar ao meu lado. Precisas compreender-me. E precisas explicar-me corretamente.
 Ora muito bem, estás preparado? Aqui vai. O ser humano, ou melhor, eu - vamos falar de mim - acordo todos os dias e tenho uma rotina. Essa rotina é composta por trabalhos e intervalos. Durante os trabalhos, há foco, concentração e dedicação. Durante os intervalos, há descanso, distração e divertimento. Todos os intervalos deviam ser assim compostos por sentimentos agradáveis, certo? Mas a imaginação vem e atrofia tudo. Para te explicar melhor como funciona, posso dar-te o exemplo deste nevoeiro. Tenho pequenas visões da realidade, o resto imagino - o nevoeiro permite-me ver algumas formas, tu és imaginado. A imaginação faz-me exagerar atitudes e ver situações irrealizáveis e impo…

Amor implorado

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Não é mal. Não é bem. É nada. É esperar. É rotina. É cansaço. É caminhar sem certeza de sucesso. Se é assim que tem de ser? Sim, é. Para um dia alcançar a meta, há que haver paciência. E esperança. Mas até lá, as recaídas são mais do que as esperadas.
 O vento forte junta-se à chuva imparável. As nuvens apressadas escondem o sol caloroso. Dois apaixonados. Um beijo ansioso. Um abraço fogoso. Dois corpos frenéticos. Embalados pelas estrelas. Empatados por diferentes cursos de vida.
 Juntos, sintonia radiante. O mesmo querer. O mesmo sentir. Separados, emoções desorientadas. O mesmo querer. O mesmo sentir. Porém, mais intenso. Mais obsessivo. Mais urgente. Mais implorativo.
"I think the phrase "I crave you" is one of the deepest forms of love. To desire someone to the point where you want to devour them and make them a part of you. Almost like craving for food or water. It's your hunger, your thirst. You crave everything about them. Every part of them. Every little th…

Rir para não chorar

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Passaram-se três dias e ainda bem que apareceste hoje. Sei que só apareces quando eu quero, mas é bom pensar que adivinhas. E que bem que me sabe este café quente.
 Lembraste daquela noite que me doía a garganta e perguntaste se eu queria leite com mel? Não sei porquê, sempre fizeste coisas por mim, mas naquela noite fiquei super admirada e por isso perguntei se não te importavas de ir fazer. E tu respondeste, talvez também admirado com a minha pergunta, "Claro que faço, achas que não fazia?". Ficaste a olhar para mim enquanto o bebia, satisfeita. Depois tapaste-me, como todas as outras noites. Recordar este momento sabe-me tão bem. Também gostavas de voltar atrás?
 O Natal está a chegar. Esse monstrinho natalício está quase a chegar e tu só apareces aqui. Devias aparecer à meia noite vestido de Pai Natal. Como naquele ano em que desceste as escadas com a minha bicicleta nas mãos. Ou quando fizeste uma criança chorar por causa da barba. Se não quiseres vestir o fato, também…

A loucura do amor

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Estás à minha espera. Com outro café. Que surpresa agradável. É pena a roda não parar. Importas-te se misturar tudo?
 É um querer inexplicável. Acompanhado de uma insegurança desconfortável. Quanto mais sinto, menos digo. Vejo a verdade, imagino a mentira. Certo masoquismo. Habituada à dor, espantada com tamanha bondade. É tanto querer, tanta vontade de mais. Não basta o tudo que me é entregue. Preciso receber mais que tudo. Não há palavras para isso, nem te consigo explicar com clareza o que é querer com tanto querer. Chega a ser sufocante. Para ambos. Um dá tudo, o outro quer mais. Um quer uma pausa, o outro quer dar mais.   No meio de tanto querer, também há tentativas de explicações. É aqui que o passado entra e aí já nada é certo ou errado. Uma lágrima cai e percebemos que estamos no limite. Limite de entrega, limite de exigência. A chama apaga-se e a loucura instala-se. Primeiro a loucura destruidora, segundo a loucura silenciosa e terceiro a loucura mentirosa. Gosto do que sin…

O último momento

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Quero contar-te tudo. E vou contar-te agora, porque depois... Depois o café arrefece, outro assunto surge, o encanto perde-se, fica tarde e tanta coisa muda... Se me queres ouvir tem de ser agora, porque depois o sentimento é outro. A roda não para, garanto-te. Senta-te e prepara-te.
 Os meus olhos abriram-se e o meu estômago apertou-se. Obriguei-me a levantar da cama. Pensei em comer, mas só o simples pensamento de pôr alguma coisa comestível na boca dava-me vómitos. Olhei-me ao espelho e pensei "estás pronta para dar as mãos ao sofrimento e para ignorar tudo e todos" e assim saí de casa.   Vou saltar a parte em que o toquei, me obrigaram a comer, cumprimentei pessoas e não me lembro de nenhuma, abracei umas quantas, dei a mão a outras tantas... Vou diretamente para o último momento. Aquele em que tudo parou. Acreditas que tudo parou mesmo? Não sei se só para mim, mas também pouco me interessa. Não sei quanto tempo esperaram. Não sei quem comovi. Não ouvi ninguém. Fechei o…

Trabalhar a brincar

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O mundo do trabalho não é diferente daquilo a que estava acostumada. Também há cansaço, impaciência, superioridade, falsidade, conversas mesquinhas... Todos querem pisar mas ninguém quer ser pisado. E pensava eu que os adultos, por serem adultos, não eram assim. Chega até a ser deprimente lidar com certas situações, ver e ouvir certas coisas.
 Apesar da parte menos boa, gosto desta descoberta. Faz-me crescer. Prepara-me para os dias futuros. Não é brincadeira, mas é como se fosse uma pausa. A pausa que eu precisava. Um ano. Este ano.


Tua S, ♥